Urnas eletrônicas: como funciona a tecnologia por trás do voto no Brasil

Desde 1996, as urnas eletrônicas fazem parte das eleições brasileiras. Ao longo de quase três décadas, esses equipamentos passaram por mudanças no hardware, nos programas utilizados e nos mecanismos de segurança. Mas você sabe quem fabrica as urnas, como elas registram os votos e quais tecnologias são empregadas para proteger os resultados?

Embora lembrem um computador convencional, as urnas eletrônicas são dispositivos desenvolvidos para uma finalidade específica: identificar o eleitor, registrar os votos e realizar a apuração de maneira automatizada. Para entender seu funcionamento, é preciso conhecer um pouco da tecnologia que existe por trás do equipamento.

Quem desenvolve e fabrica as urnas eletrônicas?

Uma informação interessante é que o projeto das urnas eletrônicas brasileiras pertence à Justiça Eleitoral e é definido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso significa que a empresa responsável pela fabricação não decide sozinha como o equipamento deve funcionar.

O TSE estabelece as especificações técnicas, os requisitos de segurança e as características do dispositivo. As empresas interessadas participam de licitações e precisam atender às exigências previstas nos editais. Depois da aprovação do projeto, a fabricação também passa por procedimentos de acompanhamento e controle de qualidade.

Ao longo da história das urnas eletrônicas, empresas como Unisys Brasil, Procomp, Diebold Procomp e Positivo Tecnologia participaram da produção de diferentes modelos. A Positivo foi responsável pelos modelos UE2020 e UE2022, utilizados nas eleições mais recentes.

Essa separação entre projeto e fabricação é importante para compreender o funcionamento do sistema: a empresa contratada produz o equipamento conforme as especificações estabelecidas pela Justiça Eleitoral, enquanto o desenvolvimento dos programas utilizados nas urnas é realizado pela equipe técnica do TSE.

O hardware: o que existe dentro de uma urna eletrônica?

O hardware é a parte física de um equipamento, ou seja, seus componentes eletrônicos, placas, circuitos, processadores, memória, tela e teclado.

Nas urnas eletrônicas, esses componentes são organizados para executar tarefas específicas, sem a necessidade de todos os recursos encontrados em um computador doméstico. O equipamento possui, entre outros elementos, um terminal utilizado pelo mesário para identificar e autorizar o eleitor, um terminal de votação com teclado numérico e tela, além de dispositivos de armazenamento e impressão.

Os modelos mais recentes também contam com recursos de identificação biométrica, utilizados para auxiliar na confirmação da identidade do eleitor, conforme a configuração e os procedimentos aplicáveis à seção eleitoral.

Outro componente importante é o hardware de segurança, responsável por verificar a autenticidade dos programas que serão executados no equipamento. Ele trabalha com mecanismos criptográficos que permitem conferir se os sistemas utilizados correspondem aos programas oficiais preparados para a eleição.

As urnas também utilizam mídias eletrônicas para armazenar informações relacionadas à votação. Há mecanismos de redundância para reduzir o risco de perda de dados caso ocorra algum problema com uma das mídias.

É importante observar que nem todos os modelos possuem exatamente os mesmos componentes. Como acontece com outros equipamentos eletrônicos, as urnas evoluem com o tempo, incorporando melhorias e tecnologias mais recentes.

O software: os programas que fazem a urna funcionar

Se o hardware corresponde à parte física, o software é o conjunto de programas que determina como o equipamento deve operar.

No caso das urnas brasileiras, os programas eleitorais são desenvolvidos pela equipe técnica do TSE. Eles controlam diferentes etapas do processo, desde a inicialização do equipamento até o registro dos votos e a emissão dos resultados.

Desde 2008, as urnas utilizam o Uenux, um sistema operacional baseado em Linux e adaptado às necessidades da votação eletrônica.

Sobre esse sistema operacional são executados programas responsáveis por funções específicas. Um deles é o software de votação, conhecido como Vota, que permite registrar os votos e realizar a apuração na própria seção eleitoral.

Antes do início da votação, a urna passa por procedimentos de preparação e verificação. O equipamento recebe os dados necessários para aquela eleição, incluindo as informações dos candidatos, e precisa estar configurado corretamente para funcionar.

Durante a votação, o eleitor digita os números correspondentes à sua escolha e confere na tela as informações apresentadas pelo sistema. Após a confirmação, o voto é registrado eletronicamente.

O processo ocorre sem que o equipamento precise consultar um servidor na internet para cada voto. Essa característica faz parte da arquitetura adotada pela Justiça Eleitoral.

Como funciona a segurança das urnas eletrônicas?

A segurança de um sistema eletrônico não depende de um único recurso. Ela é construída a partir da combinação de mecanismos de proteção, procedimentos de controle e verificações realizadas em diferentes etapas.

Uma das principais características das urnas brasileiras é o funcionamento isolado. O equipamento não possui conexão convencional com a internet, Wi-Fi ou Bluetooth, nem os recursos necessários para se conectar diretamente a uma rede de computadores durante a votação.

Isso reduz determinadas possibilidades de ataque remoto, mas não significa que a segurança possa ser garantida apenas pela ausência de conexão. Também é necessário proteger os programas, controlar o acesso físico aos equipamentos e verificar a integridade dos dados e dos procedimentos eleitorais.

Outro mecanismo importante é a assinatura digital. De maneira simplificada, ela funciona como uma forma de verificar a autenticidade de um programa ou arquivo e identificar alterações em seu conteúdo.

Os programas oficiais passam por procedimentos de assinatura digital e lacração antes de serem instalados nas urnas. O hardware de segurança verifica as assinaturas durante a inicialização e o carregamento dos componentes de software, contribuindo para impedir a execução de programas não autorizados.

A criptografia também desempenha um papel importante na proteção das informações e na verificação da autenticidade dos dados produzidos pelo equipamento.

Esses mecanismos são complementados por procedimentos de preparação, testes, fiscalização e auditoria. A ideia é que a segurança não dependa apenas da confiança no fabricante ou no programa, mas também de controles que permitam verificar diferentes etapas do processo.

Auditoria e transparência: como o funcionamento é verificado?

A segurança técnica é apenas uma parte da discussão. Também é importante que existam procedimentos capazes de permitir a inspeção e a verificação do sistema eleitoral.

Uma das iniciativas utilizadas no Brasil é o Teste Público de Segurança dos Sistemas Eleitorais, promovido pelo TSE. Nele, especialistas e pesquisadores podem examinar componentes do sistema e realizar testes controlados para identificar possíveis vulnerabilidades.

O código-fonte dos programas eleitorais também pode ser inspecionado por instituições, especialistas e representantes autorizados, conforme as regras e os períodos estabelecidos pela Justiça Eleitoral.

Além disso, existem procedimentos de verificação antes, durante e depois da votação. Entre eles estão a emissão da zerésima, documento que demonstra que a urna não contém votos registrados antes do início da votação, e a emissão do Boletim de Urna, que apresenta os resultados daquela seção eleitoral após o encerramento.

O Boletim de Urna pode ser consultado e comparado com os resultados divulgados oficialmente. A assinatura digital e outros recursos de autenticidade ajudam a verificar a origem dos arquivos.

É importante diferenciar esses procedimentos: cada um verifica aspectos específicos do sistema. A existência de testes e auditorias não elimina a necessidade de aperfeiçoamento contínuo, assim como a identificação de uma vulnerabilidade em um teste não significa, por si só, que ela tenha sido explorada em uma eleição real.

A avaliação técnica depende das evidências encontradas, das condições em que os testes foram realizados e da análise das medidas de proteção existentes.

O que pode mudar nas próximas gerações de urnas?

Assim como acontece com computadores, celulares e outros equipamentos eletrônicos, as urnas precisam acompanhar a evolução dos componentes e dos requisitos de segurança.

Em 2026, o TSE já trabalhava no planejamento de uma nova geração de equipamentos, com consultas públicas e preparação de especificações para futuras aquisições, incluindo modelos destinados às eleições a partir de 2028.

Entre os aspectos que podem orientar essa evolução estão a modernização do hardware, a disponibilidade de componentes, a manutenção dos equipamentos, a acessibilidade para os eleitores e o aperfeiçoamento dos mecanismos de segurança.

A evolução do software também é contínua. Melhorias podem envolver a correção de falhas, a atualização de bibliotecas e componentes, o aprimoramento dos processos de verificação e a adaptação a novas necessidades operacionais.

Isso não significa que todas as mudanças imaginadas para o futuro já estejam definidas ou que serão necessariamente implementadas. As características de cada nova geração dependem das especificações técnicas, dos processos de contratação e das decisões da Justiça Eleitoral.

O desafio é atualizar a tecnologia sem perder de vista as necessidades fundamentais do equipamento: confiabilidade, segurança, facilidade de uso e capacidade de atender a milhões de eleitores.

A urna eletrônica brasileira é um exemplo de aplicação da informática em uma atividade que exige precisão, controle e rastreabilidade. Seu funcionamento envolve muito mais do que o teclado no qual o eleitor digita os números dos candidatos: existe uma combinação de hardware especializado, software desenvolvido para a votação, mecanismos criptográficos e procedimentos de auditoria.

Conhecer esses elementos ajuda a compreender tanto os recursos utilizados para proteger o sistema quanto a importância de manter testes, verificações e melhorias constantes.

Como acontece com qualquer tecnologia, a segurança precisa ser avaliada a partir de critérios técnicos e evidências verificáveis. Entender como os equipamentos funcionam é um passo importante para que o debate sobre o assunto seja mais esclarecedor, permitindo que as pessoas conheçam os mecanismos existentes e compreendam os desafios envolvidos na evolução de um sistema eletrônico de votação.


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