O foco das organizações hoje está mais na gestão da complexidade, integração e proteção de dados
A RSA Conference 2026 deixou mais evidente um movimento que já vinha acontecendo: o uso de inteligência artificial já está em toda a cadeia de cibersegurança e isso está aumentando o nível de exposição das empresas.
Na prática, não se trata mais de discutir adoção, mas sim, como proteger ambientes que estão ficando mais abertos, mais conectados e muito mais dependentes de dados.
De acordo com o Gartner, até 2027, 17% dos ataques cibernéticos devem envolver inteligência artificial generativa. O relatório demonstra que o cenário já começou a mudar.
Não é só o ataque, mas sim, o dado
Uma mudança importante nas discussões é onde está o foco do risco. Durante muito tempo, a prioridade foi evitar a invasão. Isso continua relevante, porque reduzir a superfície de ataque ainda é o primeiro passo de qualquer estratégia de segurança. O ponto é que, mesmo com esse esforço, invasões ainda acontecem e, quando isso ocorre, o que define o tamanho do problema é o nível de proteção dos dados acessados: se o dado está exposto, o impacto financeiro, reputacional e regulatório é imediato. Se o dado está protegido, o cenário muda.
No evento, ficou clara a preocupação com controle de acesso, rastreabilidade e governança da informação, principalmente em ambientes que usam inteligência artificial. Modelos, APIs e integrações passam a concentrar dados sensíveis, muitas vezes sem o mesmo nível de proteção esperado.
No contexto brasileiro, isso ganha ainda mais peso com a LGPD. O risco já não é apenas técnico e passa a envolver multa, imagem e continuidade do negócio. E, mesmo assim, a proteção de dados ainda não recebe o mesmo nível de prioridade que outras camadas de segurança.
Complexidade segue como desafio
Outro ponto evidente na RSA foi o excesso de ferramentas: o mercado oferece soluções para praticamente tudo. Em uma das conversas no evento, essa realidade foi comparada, de forma ilustrativa, a uma “tabela periódica” da cibersegurança – uma analogia que ajuda a traduzir o tamanho do ecossistema atual.
O problema é fazer isso funcionar de forma integrada. Na prática, muitas empresas operam ambientes fragmentados, difíceis de gerenciar e com custo alto. Esse cenário abre espaço para uma discussão mais pragmática: antes de pensar em novas soluções, é preciso organizar o que já existe.
Na prática, isso passa por reduzir o número de ferramentas sobrepostas, integrar melhor as soluções e ganhar mais controle sobre a operação de segurança como um todo.
Menos ferramenta, mais efetividade
Entre as soluções apresentadas, algumas chamaram atenção justamente por irem na direção oposta do excesso. De um lado, abordagens que usam inteligência artificial para automatizar testes de segurança, simulando ataques e identificando vulnerabilidades de forma contínua.
De outro, modelos que simplificam a conectividade de ambientes corporativos, com controle direto sobre o que o usuário pode ver, copiar ou compartilhar, mas sem depender de estruturas complexas.
São propostas diferentes, mas com o mesmo objetivo: reduzir a superfície de ataque sem aumentar a complexidade.
Segurança precisa funcionar
Um dos pontos mais subestimados é que, se a segurança não funciona bem na prática, ela não se sustenta.
Não adianta ter uma arquitetura robusta se ela não funciona no dia a dia. Quando a segurança atrapalha a operação, ela começa a ser contornada e isso cria novas vulnerabilidades.
Por isso, pensar em segurança também é pensar em seu uso, em como as pessoas acessam sistemas, compartilham informação e trabalham. Sem isso, qualquer estratégia não fica completa.
A decisão continua sendo de negócio
Com toda a evolução tecnológica, a base continua a mesma: gestão de risco. Cada empresa precisa entender o que é mais crítico – se são dados, operação, acesso, reputação, e tomar decisões a partir disso.
O que muda é o contexto. Com inteligência artificial ampliando tanto as possibilidades quanto os riscos, o tempo de resposta diminui e o impacto de uma falha aumenta. A RSA 2026 reforçou isso de forma clara.
A discussão sobre cibersegurança está mais sobre como proteger informação em um ambiente que já não é mais controlado como antes. E essa é uma conversa que já não se concentra mais na área técnica: ela já chegou ao nível estratégico, envolvendo as decisões de negócio.(*)
Por: Leonardo Santos – Chief Technology Officer (CTO) da Delfia, curadoria de jornadas digitais.





