O software ainda importa — mas não da forma como as empresas imaginam

Desenvolver ficou mais rápido, barato e acessível, e isso está mudando o valor dos sistemas dentro das organizações

Por Fabio Caversan

Nos últimos meses, o debate sobre o suposto “fim do software” ganhou espaço entre executivos e líderes de tecnologia. A provocação chama atenção, mas parte de uma premissa equivocada. O desenvolvimento de software não está desaparecendo. O que está sendo profundamente transformado é o papel que o software ocupa dentro das empresas.

Nunca foi tão simples criar sistemas. A combinação de inteligência artificial, automação e novas arquiteturas reduziu drasticamente o tempo e o custo necessários para transformar uma ideia em código funcional. O que antes exigia grandes equipes, longos ciclos de desenvolvimento e investimentos elevados hoje pode ser feito de forma muito mais ágil. Essa mudança altera a lógica de valor do software.

Quando algo deixa de ser difícil, deixa também de ser escasso. E, quando deixa de ser escasso, deixa de ser o principal diferencial competitivo.

Durante décadas, o software foi tratado como um ativo estratégico quase imutável. Grandes sistemas corporativos levaram anos para ser construídos e passaram a sustentar processos críticos, decisões e modelos de negócio inteiros. O esforço envolvido em sua criação funcionava como uma barreira de entrada. Mudar era caro, demorado e arriscado. Permanecer parecia a opção mais segura.

Esse cenário não existe mais. Hoje, a facilidade de desenvolver expõe um novo risco: a dependência de sistemas que evoluem mais lentamente do que o próprio negócio. Não se trata de falhas técnicas, mas de limitações estruturais. Muitos softwares foram concebidos para um ambiente mais previsível, com mudanças graduais e ciclos longos de planejamento. Em um mundo marcado por volatilidade, esse descompasso se torna evidente. O problema, portanto, não é tecnológico. É estratégico.

Ainda é comum encontrar empresas que tratam software como algo que se compra, se implementa e se preserva ao máximo. Essa mentalidade perdeu aderência à realidade atual. Software deixou de ser um produto acabado e passou a ser um elemento vivo, que precisa ser constantemente revisto, ajustado e, em alguns casos, substituído.

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A inteligência artificial acelera esse movimento. Ao reduzir o esforço de codificação, facilitar testes e automatizar tarefas de engenharia, ela desloca o foco do “construir sistemas” para o “fazer sistemas evoluírem”. O valor já não está no tamanho ou na complexidade do software, mas na capacidade de adaptá-lo rapidamente quando o contexto muda.

Isso redefine o papel da tecnologia nas organizações. O diferencial competitivo não está mais em qual sistema uma empresa utiliza, mas na rapidez com que consegue transformá-lo para atender novas demandas, novos clientes e novos modelos de negócio. A pergunta estratégica deixa de ser “qual software adotamos” e passa a ser “o quanto conseguimos mudar”.

Essa mudança exige uma postura diferente da liderança. Em vez de proteger estruturas existentes a qualquer custo, é preciso criar ambientes tecnológicos flexíveis, capazes de conviver com o novo sem descartar o que ainda gera valor. Não se trata de abandonar sistemas consolidados, mas de evitar que eles se tornem obstáculos à evolução.

Empresas que compreenderem essa transição estarão à frente na capacidade de transformar tecnologia em resultado. Elas usarão a facilidade de desenvolvimento para criar soluções mais aderentes à sua realidade, reduzir dependências excessivas e ganhar velocidade na tomada de decisão.

O software continua sendo relevante. O que mudou foi a forma como ele cria valor. Em um ambiente de transformação constante, rigidez virou fragilidade — e adaptação passou a ser a principal vantagem competitiva.

(*) Fabio Caversan é CTO do Grupo Stefanini, consultoria tech global com mindset AI-First.